sexta-feira, 7 de agosto de 2009

OS PROBLEMAS DAS ESCOLAS: A CRIATIVIDADE “CONTRA” A INOVAÇÃO

Há pouco tempo tivemos oportunidade de trabalhar em resolução de problemas (http://www.apgico.pt/index_ficheiros/newsletter_Jun09.htm)com os professores do conselho pedagógico de uma escola secundária, bem cotada nos rankings do ministério.

Começámos por listar os desafios principais que afligem a escola: diminuição do abandono escolar, melhoria dos resultados dos alunos, melhoria do comportamento dos alunos, estimular o interesse pela aprendizagem, levar os professores a fazer investigação, trazer mais pais à escola, valorizar a auto-estima dos professores, melhorar a organização da sala de aula, simplificar o modelo de avaliação de desempenho e diminuir a carga burocrática.

Como só podíamos tratar de um problema, a escolha foi (para grande surpresa minha) "diminuir a carga burocrática", posteriormente reformulado para "simplificar os procedimentos burocráticos".

Iniciando com uma feroz crítica ao sistema e às sucessivas reformulações legislativas, que submergem por completo a escola, cedo ficaram claros dois aspectos: o ritmo de inovação imposta é incompatível com qualquer perspectiva de qualidade, pois ainda não se testou uma e já outra surge no horizonte; e é nos próprios (e não no legislador) que reside a maior tendência para a burocracia não produtiva. E se o grupo não podia controlar a primeira, já sobre a segunda produziu uma solução bem interessante: "O regulamento (qualquer regulamento da iniciativa da escola, por imperativo da lei) não pode exceder a extensão da lei que lhe deu origem".

E, a partir daí, foi desenhado um cronograma de realizações sobre toda a regulamentação ainda em vigor na escola. Podem crer que, se o problema for reduzido, esta escola terá descoberto a solução para grande parte dos males que afligem as nossas organizações, em especial as do Estado.

Assim, com criatividade, poder-se-á reduzir o impacto negativo das inovações impostas, que atingem, hoje em dia, qualquer organização, tornando muito difícil aos colaboradores preocuparem-se com aspectos importantes como a qualidade, o serviço ao cliente e mesmo a inovação que realmente interessa à organização. É este, também, o cenário que temos encontrado nas empresas com quem temos trabalhado. Apetece mesmo dizer: "contra a inovação disruptiva, a resposta é afirmar a criatividade construtiva":

terça-feira, 28 de julho de 2009

Procuram-se ideias

A primeira fase do pipeline de inovação é o recrutamento de ideias e projectos. A qualidade dos outputs vai depender naturalmente da base de recrutamento e do processo de triagem.

Como e onde recrutar ideias na organização? Dois caminhos possíveis: 1) propor desafios de negócio, focando o âmbito das ideias e eventualmente seleccionando os participantes e 2) alargar a base de intervenção e deixar os principais filtros para a fase de triagem.

No primeiro grupo estão os brainstormings orientados ou workshops de co-criação e outras plataformas de colaboração. São eficazes nos resultados, especialmente se considerarem as competências formais e não formais dos participantes, mas desperdiçam o capital de criatividade disperso pela estrutura.

Rowan Gibson e Peter Skarzynski defendem, no seu livro Innovation to the Core (lançado em Março de 2008), que numa pool de mil ideias, é de esperar seleccionar 100 ideias para piloto, transformar 10 pilotos em projectos e identificar 1 inovação radical.

Partindo desta probabilidade de 0,1%, é preciso um largo universo de ideias para fazer gerar ideias ou projectos potencialmente disruptivos. Por isso é importante montar mecanismos que permitam alargar a pool.

Os concursos de ideias podem ser uma boa resposta. E o seu papel vai para além do abastecimento do pipeline de inovação – a participação aberta a todos contribui para criar uma cultura de inovação e um sentido de pertença.

Os prémios dos concursos podem ajudar a enriquecer o plano de comunicação, especialmente se oferecerem experiências memoráveis (um i-phone na altura do seu lançamento, uma viagem a um destino exótico, um jantar num restaurante de charme), mas não são (e ainda bem!) os principais dinamizadores das participações.

A gestão do pipeline de ideias não se esgota na gestão das entradas. Inclui toda a evolução das ideias no processo de triagem até à sua implementação, onde a entrega às áreas de negócio é muitas vezes um tema sensível. E as métricas de gestão devem naturalmente acompanhar as várias fases.

Sobre os resultados dos concursos de ideias, é importante manter expectativas realistas. Identificar uma inovação potencialmente radical num concurso de ideias é como encontrar uma agulha num palheiro. Por este motivo, várias empresas optam por colocar o foco dos concursos de ideias na procura de soluções de melhoria contínua.

Seja qual for o principal objectivo dos concursos de ideias para a gestão, estes mecanismos são um importante contributo para a canalização e sistematização da inovação na empresa.


Recomendo o link
http://www.rethinkinggroup.com/rowan/images/RGArticles/A45_InnovationThroughPeople_2008.pdf Innovation through people, by Rowan Gibson
Tópico: importância dos mercados abertos de ideias nos sistemas de gestão de inovação.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A importância da Vigilância Tecnológica – Pequeno-almoço amanhã no Hotel Quinta das Lágrimas

Tendo em conta a importância que a Vigilância Tecnológica representa na optimização do Sistema de Gestão de Investigação, Desenvolvimento e inovação (IDi), a Clarke, Modet & Co. - Portugal decidiu organizar dois pequenos-almoços de trabalho, sobre o tema “A importância da Vigilância Tecnológica para o Sistema de Gestão de IDi”.

Um dos eventos decorreu em Lisboa, no dia 07 de Julho de 2009, nas instalações da Clarke, Modet & Cº, e o outro decorrerá amanhã, dia 10 de Julho de 2009, em Coimbra, no Hotel Quinta das Lágrimas, tendo início às 8h30.

A Vigilância Tecnológica é um instrumento de inovação que permite a disseminação do conhecimento e o desenvolvimento de novos produtos, assegurando a transferência tecnológica e a sua integração na empresa, potenciando atingir elevados níveis de desempenho industrial, sendo também um impulsionador da competitividade de um País. Trata-se de uma pesquisa realizada por equipas especializadas, que permite às empresas conhecer os desenvolvimentos tecnológicos e científicos que se estão a realizar a nível mundial, apoiando desta forma a tomada de decisões estratégicas de negócio e de lançamento de novos produtos no mercado.
A inovação é um processo que exige o conhecimento e relacionamento com o exterior no sentido de aceder a recursos e tecnologias que não existem no seu seio. Este é um conhecimento que permite que as empresas mantenham a sua competitividade, e evita o investimento em actividades de investigação e desenvolvimento redundantes.

Links complementares:
http://www.madrimasd.org/vigTecnologica/
http://www.esesme.com/technologywatch-pt
http://www.ilanet.com.br/cgi-local/portal/bin/view/Ilanet/VigilanciaTecnologica

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Workart - Uma Aliança Criativa

Imagination rules the world – Napoleon 

A construção de estratégias empresariais sustentáveis, capazes de gerar crescimento e emprego, passam pela combinação de recursos produtivos, de modo a criar uma vantagem dificilmente imitável e com alta capacidade de resposta ao mercado. É esta forma de inovação, sustentável, sem preocupações de a tipificar em inovação incremental ou radical, ou inovação de produto ou processo, que uma abordagem de base artística à gestão intenta. Esta abordagem toma o nome de Workart e pode ser definida, segundo Barry e Meisiek, como: um processo ou artefacto que, pelo seu carácter pouco usual, cria uma tensão dinâmica entre o conhecido e o recentemente apreendido, de modo a que num processo de aprendizagem se crie uma nova família de conhecimento, desenvolvendo as capacidades já adquiridas e adquirindo outras. Trataremos aqui um caso especifico de uma experiência de Workart. 


Os quadros superiores de uma empresa multinacional do ramo automóvel a operar em Portugal efectuaram 3 dias de actividades artísticas de modo a fortalecer os laços da direcção e com o intuito de desenvolver competências que lhes permitam encetar estratégias de diferenciação num mercado, altamente competitivo, a nível global. Assim, foram utilizadas 4 disciplinas artísticas: dança, escrita, pintura e teatro/encenação. Em paralelo foram ministradas duas palestras, a primeira de sensibilização e enquadramento das actividades que se iriam realizar e a segunda a versar sobre as semelhanças de dirigir uma grande orquestra internacional e uma empresa competitiva no mercado global. 

Os participantes, sem o saberem, escreveram, pintaram e, posteriormente, encenaram e interpretaram um conto infantil. As reacções do grupo, apesar da sua idade (média de 50 anos) e posição na empresa (direcção), surpreenderam pela positiva. Envolveram-se de forma empenhada e incorporaram em cada actividade as orientações dadas, mesmo nas actividades que de início poderiam ser alvo de maior resistência, quer pela sua complexidade, quer pela forma como tinham de sair da sua zona de conforto.

Embora este programa tenha contado com um tempo de desenvolvimento escasso, os efeitos no grupo foram imediatamente sentidos, havendo elementos a agradecer as ferramentas que, de forma aparentemente desprendida, ganharam e que poderiam ser aplicadas nos seus cargos. De facto, grande parte do grupo expressou, posteriormente, de forma directa ou indirecta, o ganho de competências de comunicação, tanto nas relações com clientes, como com colaboradores, de abordagem de problemas de forma diferenciada e que “agora” nas reuniões falavam mais com o corpo, com postura e com expressões, estando menos dependentes do dispositivo informático.

Links complementares:

• Workart – A Gestão e a Arte

http://www.fep.up.pt/investigacao/workingpapers/08.08.27_wp288.pdf

• Comunique Acção - A arte de provocar a descoberta

http://ideiasparacomunicar.blogspot.com/

• 1º Capitulo do livro Creative Alliances: The interplay between arts and business

http://www.creativityatwork.com/Newsletters/artfulcreation_ch1.pdf

• Sir Ken Robinson – Do schools kill creativity?

http://www.youtube.com/watch?v=iG9CE55wbtY

terça-feira, 30 de junho de 2009

Instituto Europeu Tecnologia e Inovação: mais um nó para a nossa rede....

Uma das principais iniciativas do recém-criado (2008) Instituto Europeu de Tecnologia e Inovação - projecto-bandeira na promoção inovação de José Manuel Durão Barroso - designa-se KIC`s  (Knowledge Innovation Communities). 

Como objectivo pretende promover o desenvolvimento de um ecossistema europeu de inovação. Como Durão Barroso referiu no discurso de inauguração visa contribuir para o incentivo da "quinta liberdade - livre circulação do conhecimento".

Abaixo um dos eventos que clarificará o conceito e operacionalização dos  KIC´s em Portugal. 

----- Original Message -----
Sent: Tuesday, June 23, 2009 1:39 PM
Subject: REMINDER: Sessão Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT) Call KIC 2009
 
Exmo./a Sr./a
 
Relembro que o GPPQ irá realizar uma Sessão Pública no próximo dia 30 de Junho a partir das 15h30 no Auditório II - Centro de reuniões da FIL no Parque das Nações em Lisboa relativa à 1ª call das KIC (Knowledge Innovation Communities) do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia.
 
Esta call é destinada à criação de comunidades de excelência que englobam os 3 pilares da Estratégia de Lisboa: inovação, investigação e educação para as áreas de alterações climáticas, energia sustentável e tecnologias da informação e pretende englobar empresas (PME incluídas), institutos de investigação, universidades, sociedades de investimento (capital de risco e business angels), entidades públicas e associações.
 
Esta sessão contará com a presença do Professor João Caraça membro do Governing Board do EIT, e tem como objectivo possibilitar a todos os potenciais proponentes (universidades, centros de investigação, grandes empresas, PMEs, etc.) a fazer parte das 2-3 KIC que irão ser lançadas.
 
A inscrição na sessão é gratuita e deverá ser efectuada através de e-mail para alexandre.marques@gppq.mctes.pt.
 
Em anexo, envia-se a agenda da sessão.
 
Alexandre Marques
FP7 Legal and Financial National Contact Point
GPPQ - Gabinete de Promoção do 7.º Programa Quadro de IDT da UE
FP7 Promotion Office
Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Av. 5 de Outubro, nº 85, 6º
1050-050      LISBOA
Tel. : +351 21 782 83 53
Fax.: +351 21 797 16 89
         www.cordis.europa.eu/fp7/


::. Links complementares
- Site oficial Instituto http://eit.europa.eu/
- FAQ´s Instituto http://europa.eu/rapid/pressReleasesAction.do?reference=MEMO/08/153&format=HTML&aged=0&language
- Mais informação sobre KIC`s http://eit.europa.eu/kics-call.html
- Outra iniciativa-chave do Instituto http://eit.europa.eu/experts.html

quinta-feira, 11 de junho de 2009

World Innovation Summit, Barcelona, 17-19 Junho 2009

Se não consegue ver este email, clique aqui.

inicios


Durante três dias, Barcelona irá converter-se na capital mundial da inovação e reunirá lideres de grande prestígio internacional com novas e inovadoras teorias, analisadas de diferentes pontos de vista. Gary Halmel, considerado por The Economist o “gurú da estratégia”, Michael Eisner, ex CEO da the Walt Disney Company e Vijay Govindarajan, considerado um dos melhores especialistas em estratégia e inovação, entre outros, serão os protagonistas  da primeira edição de HIT Barcelona 2009.

Os executivos com uma visão futura devem responder à crescente necessidade de um novo modelo de direcção empresarial.

Durante a próxima década, a sua empresa irá passar por alguns momentos onde inevitávelmente irá enfrentar o desafio da mudança.diz Gary Hamel “gurú” da estratégia no seu novo livro, The Future of Management. Na sua opnião a ortodoxia aplicada às organizações e relações com os colaboradores, afasta a esperança de que as empresas possam evitar reestruturações traumáticas. 
Entrevista com Gary Hamel e Lowell Bryan, por Joanna Barsh 

[Leia o artigo completo]

"A diferença surge de novas ideias com novas visões. Aposte na inovação" HiT Barcelona 2009 

Durante 3 dias, Barcelona será a capital mundial da inovação. 
Toda a informação em
http://www.hitbarcelona.com

VÍDEO

Inovação

Michael Eisner. Durante a sua gestão como presidente executivo da Disney, entre 1984 e 2005, os lucros da empresa aumentaram de 1.700 milhões de dólares para 30.000 milhões de dólares. Fala sobre a criatividade e a inovação. 
[Ver Vídeo]

LEITURA RECOMENDADA

TEN RULES FOR STRATEGIC INNOVATORS:From Idea to Execution 
por Vijay Govindarajan e Chris Trimble 

Num Mundo que cresce lentamente, a inovação estratégica é fundamental para alcançar o êxito. Govindarajan e Trimble propõem as regras que os directivos podem utilizar para dirigir o crescimento Este livro é um grande trunfo para o seu jogo de ferramentas.


Jeffrey R. Immelt, CEO de General Electric.

CONHEÇA TUDO SOBRE OS ORADORES DE HIT 2009

Rosabeth Moss Kanter
Inovação e estratégia 

Ray Kurzweil
Inovação e Futuro 

Gary Hamel
Inovação e Management

Vijay Govindarajan
Inovação e Execução 

Michael Eisner
Gestão da inovação e o Telento 

 
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Dia 10 de Junho, Dia do Exemplo

Discurso de António Barreto no Dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, 2009

Senhor Presidente da República,
Senhor Presidente da Assembleia da República,
Senhor Primeiro-ministro,
Senhores Embaixadores,
Senhor Presidente da Câmara de Santarém,
Senhoras e Senhores,

Dia de Portugal... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.

Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os Portugueses. Onde quer que vivam.

Há mais de cem anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e o seu povo. Por isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas. Iguais, no essencial, às expressas por Eça de Queirós, aquando do primeiro dia de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que colchas às varandas, precisavam de cultura.

Estranho dia este! Já foi uma "manobra republicana", como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi "exaltação da raça", como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado para louvar imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para seduzir os nossos emigrantes, cujas remessas nos faziam falta. E apenas de Portugal.

Os Estados gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. "As festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares", disse também Eça de Queirós. Tinha razão. Mas devo dizer que temos a felicidade única de aliar a festa nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um poeta que nos deu a voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se julga Camões. Que é Camões. Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se nela não virem armadilha ou manipulação.

Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências contemporâneas.

Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E simplicidade.

Garantimos com altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e garantir a sua perenidade.

Afirmamos, com brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então. Mais vale afirmá-lo com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta comunidade.

Dizemos, com orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas deveríamos talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere.

Quando se escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói. Ele é Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de quem nele procura o melhor.

Os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes, pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes ou símbolos de uma superioridade obscena.

Ainda hoje soubemos prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas também aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever de cuidar da democracia.

As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de resistir, base da "persistência da nacionalidade", como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não apague ou esbata o resto. Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.

Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.

Há mais de trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo.

Desde então, muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo.

Ainda a viver com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade.
Evoluiu a situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto tempo, submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente.

Mudou até a constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses e credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os partidos e as associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos próximos antepassados.

A sociedade e o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens, nas relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade recente.

A pertença à União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é um facto consumado.

A estes trinta anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da população jovem. É certamente uma das realizações maiores.

Estas transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda precisa de mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal.

A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. 0 favor ainda vence vezes de mais o mérito. O endividamento de todos, país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a próxima geração. A nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.

Há poucos dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A elevadíssima abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade e de representatividade das instituições europeias. A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus deveriam pensar de novo, uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos sem saída ou falsos percursos que terminam mal. E nós fazemos parte desse número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o seu futuro, o futuro dos Portugueses que vêm a seguir.

É a pensar nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor ligar o passado com o futuro.

Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.

Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.

Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.

Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.

Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes.

Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos.

Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.

Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.

Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar "sinais de esperança" ou "mensagens de confiança". Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos.

Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.

Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país.